Nenhum filme talvez tenha caminhado de forma tão perigosa e apaixonada na linha tênue entre o sublime e o ofensivo quanto “A Vida é Bela” (1997).
A audaciosa aposta de Roberto Benigni foi usar as ferramentas da comédia e da fábula para contar uma história ambientada no coração da escuridão do século XX, um campo de concentração nazista. O resultado é uma obra que encantou milhões e ofendeu outros tantos, um filme que nos força a fazer uma pergunta fundamental e desconfortável.
Existe uma forma “correta” de representar o horror absoluto? Ao transformar o Holocausto em um jogo de faz de conta, Benigni criou um dos mais belos testamentos ao amor paterno ou cometeu uma irresponsável trivialização da história?
A estrutura do filme é a chave para entender sua proposta e sua polêmica. A primeira metade é uma comédia romântica vibrante, quase um conto de fadas. Nós somos apresentados a Guido, uma figura que parece saída da Commedia dell’Arte, um homem que conquista sua “princesa” Dora com uma energia contagiante e uma imaginação que dobra a realidade a seu favor. Benigni nos seduz com um mundo de cores quentes e humor inocente, enquanto as sombras do fascismo crescem nas bordas da tela, como uma nota dissonante que aos poucos se torna a melodia principal. Essa longa introdução nos ensina a acreditar na lógica de Guido, uma lógica onde o amor e a fantasia são as forças mais poderosas do universo.
É essa mesma lógica que ele carrega para dentro do abismo.
Quando Guido e seu filho Giosuè são deportados para o campo de concentração, ele toma uma decisão radical. Para proteger a inocência do menino, ele usa sua arma mais potente, a imaginação, e constrói uma ficção elaborada. O campo de concentração se torna o cenário de um jogo complexo, cujo prêmio final para quem fizer mil pontos é um tanque de guerra de verdade. Cada brutalidade do cotidiano do campo é traduzida por Guido em uma regra do jogo. A fome, os guardas, o medo da câmara de gás, tudo é reemoldurado por uma narrativa fantástica que funciona como um escudo para a psique da criança.
Nesse ponto, a polêmica se instala. Por um lado, nós testemunhamos um dos mais comoventes atos de amor já filmados.
Vemos um pai que, diante do mal absoluto, se recusa a deixar que esse mal contamine a alma de seu filho. O filme se torna uma ode à resiliência do espírito humano e à capacidade da fantasia de nos manter vivos. Por outro lado, críticos do mundo inteiro questionaram a validade moral dessa abordagem. Ao filtrar o horror inexprimível do Holocausto através da lente de um jogo, Benigni não estaria suavizando a realidade, tornando-a palatável e, portanto, diminuindo a verdadeira dimensão do sofrimento? Para muitos, a ideia de encontrar beleza ou humor em um campo de extermínio é uma impossibilidade ética.
“A Vida é Bela” sobrevive e provoca até hoje porque não oferece uma resposta fácil para essa questão.
A aposta de Benigni é total, e ele a leva até as últimas consequências, caminhando como um palhaço para a própria execução a fim de manter a integridade do jogo para seu filho. O filme não argumenta que o Holocausto foi um jogo, mas sim que, para uma criança sobreviver, um pai precisou fingir que era. A imagem final de Giosuè gritando “Vencemos!” a bordo de um tanque americano não é a celebração de uma vitória sobre o nazismo, mas a vitória da fábula de um pai. A polêmica que o cerca não é um defeito, mas a prova de sua força.
É um filme que nos obriga a confrontar os limites da representação, deixando-nos para sempre a debater se sua bela mentira foi um ato de sublime humanidade ou um perigoso esquecimento.