Pixote e a Pedagogia da Crueldade: A dissolução da inocência no labirinto do abandono estatal

Diante dos olhos profundos e devastados de Fernando Ramos da Silva, nós somos forçados a encarar não apenas a tragédia de um menino, mas o fracasso retumbante de um projeto de civilização que escolheu a barbárie como método de gestão social.

“Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981) não é apenas um registro neorrealista sobre a marginalidade, ele funciona como um tratado visual sobre o que podemos chamar de pedagogia da crueldade, um sistema educacional perverso onde o Estado não se omite, mas se faz presente de forma ativa para ensinar a violência, corroer a inocência e garantir que a única saída desse labirinto institucional seja a morte ou a reprodução do ódio. Hector Babenco, com sua câmera inquieta e visceral, nos joga dentro de uma estrutura que deveria acolher, mas que, na verdade, treina corpos infantis para a guerra urbana, transformando a fragilidade da infância em munição descartável para a manutenção de uma ordem excludente.

Ao adentrarmos os muros da antiga FEBEM na primeira metade da obra, percebemos imediatamente que aquele espaço não foi desenhado para a ressocialização, mas sim para a deformação sistemática do caráter, onde a arquitetura opressiva e a superlotação compõem o cenário ideal para essa aula prática de desumanização.

A fotografia, crua e muitas vezes claustrofóbica, captura a textura suja das paredes e a pele suada dos garotos para nos fazer sentir o cheiro do abandono, enquanto a encenação naturalista apaga as fronteiras entre o ator e o personagem, e nos lembra que aquela dor não é simulada. Cada espancamento, cada estupro e cada abuso de autoridade perpetrado pelos agentes estatais funciona como uma lição nessa pedagogia sombria, ensinando a Pixote e seus companheiros que a lei do mais forte não é uma escolha moral, mas a única ferramenta pedagógica oferecida por um sistema que decidiu triturar seus filhos indesejados.

Quando o grupo finalmente rompe as barreiras físicas do reformatório e ganha as ruas de São Paulo, nós testemunhamos a aplicação prática do que foi aprendido no cárcere, pois a liberdade se revela apenas como uma extensão do mesmo labirinto de concreto e indiferença. A dissolução da inocência se completa não quando Pixote empunha uma arma, mas quando seu olhar perde o brilho da expectativa e assume o vazio de quem compreendeu que não há lugar para ele no mundo dos vivos.

A genialidade trágica de Babenco atinge seu ápice na icônica cena da Pietà invertida com a personagem de Marília Pêra, onde o acolhimento materno é momentâneo e transacional, um vislumbre de afeto que é rapidamente sufocado pela realidade brutal, reforçando a tese de que, sob a tutela desse Estado algoz, até o amor se torna insustentável e perigoso.

Nós encerramos a experiência de assistir a esta obra-prima com a certeza amarga de que a trajetória de Pixote não é um acidente de percurso, mas o produto final de uma indústria eficiente na produção de monstros e cadáveres. O filme transcende o documento histórico da transição da ditadura para a democracia e se estabelece como uma denúncia atemporal de como a sociedade brasileira naturalizou a eliminação de sua juventude pobre, convertendo a negligência em política pública e a crueldade em currículo escolar.

Enquanto caminhamos com o menino pelos trilhos do trem na cena final, somos assombrados pela consciência de que aquele caminhar sem destino não é uma fuga, mas a marcha fúnebre de uma inocência que foi metodicamente assassinada muito antes do primeiro tiro ser disparado.

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