A compra da Warner pela Netflix e o presságio do fim dos cinemas

A notícia de que a Netflix comprou a Warner chega como um terremoto que abala as fundações do que entendemos sobre cinema. O que antes parecia um cenário de ficção científica agora se concretiza como a realidade crua de um mercado que decidiu canibalizar a própria história em nome do crescimento infinito. Essa transação vai muito além de uma simples mudança de donos ou uma troca de logotipos no topo de arranha-céus corporativos. Ela sinaliza o encerramento de um capítulo glorioso onde a sala escura era o templo sagrado da sétima arte e o evento de estreia era um marco cultural insubstituível.

O movimento segue a trilha agressiva aberta pela Amazon quando adquiriu a MGM e transformou um dos estúdios mais icônicos do mundo em apenas mais uma aba de conteúdo dentro de uma loja virtual. Aquele leão rugindo que marcou a infância de tantos espectadores agora é apenas um ativo digital, pois a prioridade deixou de ser a magia do cinema para se tornar a retenção de assinantes em plataformas de transmissão online. A história se repete com uma escala ainda mais assustadora, porque a Warner carrega consigo um século de legado que agora serve principalmente para alimentar a fome insaciável dos algoritmos de recomendação.

As salas de cinema sobrevivem neste contexto como templos de uma religião antiga que perde fiéis todos os dias para o conforto absoluto do lar e para a facilidade de ter um acervo infinito ao alcance do controle remoto. O ritual de sair de casa para compartilhar emoções no escuro com estranhos deixa de ser um hábito cultural sagrado para virar uma inconveniência logística cara e desnecessária para a grande massa. A imersão absoluta da tela grande foi trocada por telas de bolso que disputam o nosso olhar com a agitação do mundo real, pois transformamos o cinema em algo que se consome aos pedaços entre uma tarefa e outra.

Este negócio bilionário soa como um aviso final para os cinemas que já lutavam para sobreviver em um mundo cada vez mais conectado e impaciente. A compra da Warner pela Netflix é a prova definitiva de que os gigantes da tecnologia venceram a guerra, mas quem paga o preço real é o público que assiste à arte ser reduzida a mero passatempo de fundo enquanto se lava a louça.

Resta saber se aceitaremos passivamente que o nosso gosto seja ditado por códigos de programação ou se ainda existe espaço para a magia imprevisível que só acontece quando as luzes se apagam.

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