O provérbio que dá nome ao filme é uma mentira, e a obra-prima de Vladimir Menshov passou duas horas e meia nos provando isso.
“Moscou Não Acredita em Lágrimas” (1979) se apresenta com a dureza de um ditado popular sobre a resiliência estoica, mas o que ele entrega é um dos mais calorosos e humanos retratos da vida privada na União Soviética. Lançado em um período de estagnação política e social, o filme se tornou um fenômeno por oferecer algo que o cinema oficial raramente dava ao seu povo: a permissão para sentir. Nós acompanhamos a jornada de três mulheres ao longo de duas décadas e descobrimos, junto com elas, que a verdadeira força não está em reprimir a dor, mas em abraçar a própria vulnerabilidade.
A história começa na Moscou otimista de 1958, em pleno Descongelamento de Khrushchev, um tempo de esperança e sonhos para as jovens Katerina, Lyudmila e Antonina. O filme captura a energia da época, mas rapidamente nos mostra o abismo entre o sonho e a realidade. A protagonista, Katerina, se apaixona, engravida e é cruelmente abandonada por um homem da elite de Moscou ao ter sua origem operária revelada.
A primeira parte do filme termina com ela chorando sozinha em um banco de praça, com sua filha nos braços. Neste momento, nós somos levados a crer no provérbio. Moscou, a cidade das grandes promessas, parece de fato um lugar que esmaga os corações e não dá valor às lágrimas de uma mãe solteira.
Vinte anos depois, a câmera nos reencontra com uma Katerina transformada. Ela é agora a diretora bem-sucedida de uma grande fábrica, uma mulher que venceu na vida por seus próprios méritos, o modelo da autossuficiência soviética. Ela construiu uma armadura de competência e força, a personificação da mulher que não precisa de um homem para triunfar. Contudo, Menshov habilmente nos revela as rachaduras nessa fachada. Nós vemos sua solidão em um apartamento moderno, mas vazio, suas relações amorosas fracassadas. O sucesso profissional, o grande ideal público, não preencheu o vazio de sua vida pessoal. A mulher que provou que Moscou estava errada ainda não encontrou a própria felicidade.
É a chegada de Gosha, um operário charmoso e de princípios firmes, que inicia o verdadeiro descongelamento emocional. O romance entre dois adultos com cicatrizes da vida é o coração do filme.
Suas discussões não são sobre o partido ou a ideologia, mas sobre os papéis de gênero, a insegurança dele diante do sucesso dela e o medo dela de ser vulnerável novamente. A obra se concentra no tecido da vida cotidiana, nas pequenas alegrias e nos conflitos íntimos que definem a experiência humana. O clímax emocional não é uma grande conquista profissional, mas a catarse de Katerina, que finalmente se permite desabar e chorar nos braços de Gosha após uma crise. Neste momento, nós entendemos a tese do filme: as lágrimas não são um sinal de fraqueza, mas de cura.
O sucesso estrondoso de “Moscou Não Acredita em Lágrimas” dentro e fora da URSS foi a resposta de um público faminto por histórias que validassem suas vidas privadas. Em uma cultura que por décadas celebrou o sacrifício coletivo e o heroísmo estoico, o filme de Menshov foi um sopro de humanidade revolucionário. Ele argumentou que a busca pelo amor, a dor da traição e a alegria do reencontro eram tão ou mais importantes que as grandes narrativas do Estado.
Ele ensinou que acreditar nas lágrimas não era se render, mas se reencontrar com a própria alma.